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2011
Conversa com Gaëtan

1 de Fevereiro de 2011

Sinopse
A pintura, mesmo quando pretende reproduzir a aparência externa das coisas, conserva o seu mistério pelo tempo adiante.
Que espécie de admiração sentiam os homens do século XV pela arte do seu tempo?
Quem primeiro nos deixou algumas observações críticas acerca dos quadros dos irmãos Van Eyck e de Rogier van der Weydenfoi um homem de letras genovês, Bartolomeo Fazio. Fazio louva o cabelo do arcanjo Gabriel, "que ultrapassa o cabelo autêntico", as bagas de suor no corpo de uma mulher no banho.
Então, debaixo da grande saia preta e chinela fugiu-lhe, feriu-se no pé direito. Bártolo viu-o, branco e liso, com a esfoladela rósea na pele.
A ideia de que os olhos de Carlota se haviam detido nas suas feições, nas suas faces, nos botões da sua jaqueta e na gola do sobretudo tornava-me tudo aquilo muito querido.
A partir desse momento, adquirira aquela desconfiança que havia de arrastar consigo dia e noite; aquela preocupação de escolher e discernir, de transigir com o seu sonho e a sua ambição. Pensara em velhos quadros que vira nos museus sem os compreender bem. Esperava, como esperara frente a esses quadros, qualquer coisa que nunca acontecia.
E tendo verificado que já não possuía ideias elevadas, deixara de acreditar na sua realidade, sem poder tão-pouco negá-la por completo.
Lia assiduamente nos seus próprios sofrimentos e descobriu que perdera qualquer coisa com que nunca se preocupara até então: a sua alma. Que é uma alma?
Temos por conseguinte um tema principal: o homem do possível frente ao real.
Não, o que eu quero dizer é isto: que a realidade encerra um desejo absurdo de irrealidade!
O mundo, tal qual é, por toda a parte deixa transparecer um mundo que poderia ser, que deveria ser.
Uma coisa é em si mesma precisamente aquilo que nunca é em si mesma, mas antes em relação às circunstâncias; do mesmo modo, o seu significado é o conjunto dos seus significados possíveis.
Assim também se estabelece uma confusão entre a coisa e o nome dessa coisa, quer dizer, entre a coisa vivida por dentro e a coisa vista de fora.

O seu olhar repousava no rosto de Ágata; alguma coisa, naquele rosto, o fazia feliz. Mas disse apenas: "É tão estranho olhar-te".
Este limite flexível entre a imaginação que projecta e a imagem que terá de ser capaz de enfrentar o real é, na vida de cada um, sempre importante e incómodo de traçar.
- Mas como sou eu realmente? - perguntou Ágata.
- Justamente, tu não és real - respondeu, rindo. - Ouve! Quando estamos a braços com uma contradição e amamos essa contradição pelas suas duas faces, mas realmente a amamos! - não será isto o bastante para a resolver, quer queiramos quer não? O conhecimento dos seres pouco me importa. A única coisa que se deve saber a respeito de um ser é se ele fecunda os nossos pensamentos. Não deveria haver outro conhecimento dos humanos.
- Quem te ouvir - disse Ágata - há-de supor que não amamos realmente uma pessoa irreal.
- Foi precisamente isso que eu quis dizer.

A minha arte não pretende instituir umas tantas festas para distrair a vida corrente. Sou, portanto, o amante ainda de montanhas, prados e bosques e de tudo quanto vemos na verde terra, e também todo o mundo que ver e ouvir em parte criam.
Primeiro tenho de desiludir as pessoas. Esperam de mim coisas que facilmente iludiriam qualquer pessoa esperta. A sinceridade das minhas intenções inibe-me mais do que uma falta de talento ou de capacidade.
A minha arte não pretende instituir umas tantas festas para distrair da vida corrente.
Sou, portanto, o amante ainda de montanhas, prados e bosques e de tudo quanto vemos na verde terra, e também todo o mundo que quer ver e ouvir em parte criam.
Primeiro tenho de desiludir as pessoas. Esperam coisas que facilmente iludiriam qualquer pessoa esperta. A sinceridade das minhas intenções inibe-me mais do que uma falta de talento ou de capacidade. Sinto que mais tarde ou mais cedo encontrarei alguma coisa válida.
É ao espírito que arte se dirige e não aos olhos, claro está.
Isto é o meu corpo.
(Esta montagem de textos de autores vários feita por Gaëtan em 1977 foi lida pela primeira vez em Junho desse mesmo ano no Ar.co e relida em Fevereiro de 2011 na ArteIlimitada.)

Bio
Gaëtan nasceu em Luanda, Angola, em 1944, filho de pai português e mãe holandesa.
A partir da década de 80, Gaëtan desenvolve um interesse quase obcessivo pelo auto-retrato, tomando o tempo e a memória referências incontornáveis na sua obra.
Gaëtan é destro, embora desenhe sempre com a mão esquerda, potenciando o erro e, ao mesmo tempo, aniquilando qualquer resquício académico.

"O dilema curatorial"
Bruno Marchand
"O dilema curatorial"

19 de Abril de 2011

Desde a fundação do Museu, em meados no final do século xviii, que a figura do curador tem ocupado um lugar de progressivo destaque no panorama artístico. Da sua posição enquanto conservador – ou seja, aquele que se dedica ao conhecimento e à devida manutenção das obras de arte – até à sua condição de discursor – aquele que, através da sua prática, constrói o próprio objecto sobre o qual discorre – o curador é hoje um agente importante no grande gesto negocial que pretende estabelecer um sentido intelectual, social e cultural aos mais variados fenómenos artísticos. Nesta conferência faremos uma incursão pelos fundamentos da curadoria com o intuito de iluminar, não só as premissas que lhe subjazem e os seus modelos de actuação, mas também os dilemas que se lhe colocam no que respeita à gestão do seu suposto poder e da sua inevitável responsabilidade.

Bruno Marchand é Licenciado em Design de Comunicação e Mestre em Estudos Curatoriais pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Entre 2003 e 2008 foi colaborador da Galeria 111 para as áreas de produção e comunicação. É autor de um livro sobre a vida e a obra do artista José de Carvalho, publicado pela editora Casa do Sul em 2004, e foi editor de “Robert Rauschenberg: Critica e a Obra de 1949 a 1974”, publicado no âmbito da colecção de arte contemporânea Público/Serralves. Em 2007 comissariou a exposição “Documento:Projecto:Ficção” incluída no projecto “Antena” – programa de itinerâncias da colecção da Fundação de Serralves – e colabora com a revista L+Arte desde Janeiro de 2008, nas secções “Arquivo” e “Livros&Net”. Tem escrito para catálogos e outras publicações artísticas, integrado júris, apresentado comunicações em colóquios e conferências e prestado serviços como consultor para instituições nacionais. Desde Maio de 2009 é responsável pela programação do Chiado 8, Arte Contemporânea – projecto da Companhia Fidelidade Mundial com direcção artística da Culturgest – e, desde Janeiro de 2010, é co-curador (com Ana Anacleto) do ciclo de exposições colectivas “Appleton Recess”, a decorrer na Appleton Square, em Lisboa.
Arte Ilimitada Lda. - Escola de Artes Visuais